Futuro do trabalho exige hospitalidade nos escritórios
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Agência Tecere
O escritório continua relevante, mas seu papel mudou. Se antes era visto principalmente como um espaço para a execução de tarefas, hoje precisa oferecer experiências, promover conexões e contribuir para a atração e retenção de talentos. Essa transformação foi o ponto central do painel “O que o futuro reserva para o mundo do trabalho”, realizado durante a primeira edição do JLL Real Estate 360, evento que celebrou os 30 anos da JLL no Brasil.
Alessandra Arnone, Head de Projetos e Obras da JLL, Alessandra Osiro, Head de Locação de Escritórios da JLL, e Hilton Rejman, Presidente Brasil da BGRE, compartilharam suas perspectivas sobre as mudanças que vêm redefinindo o mercado corporativo. Segundo os especialistas, a pandemia acelerou tendências que já estavam em curso, mas que ganharam força com a consolidação do trabalho híbrido e com a chegada de novas gerações ao mercado.
“O escritório deixou de ser apenas uma mesa e uma cadeira. As pessoas esperam diversidade de espaços, ambientes que permitam diferentes formas de trabalhar e uma experiência mais completa durante o trabalho presencial”, afirmou Rejman, da BGRE.
Essa mudança se reflete tanto dentro dos escritórios quanto nos próprios edifícios corporativos. Ambientes mais flexíveis, áreas de colaboração, espaços de convivência, cafés, restaurantes e áreas verdes passaram a desempenhar um papel estratégico na experiência dos ocupantes.
Da eficiência à experiência
A transformação dos espaços corporativos também alterou a forma como as empresas projetam seus escritórios. De acordo com Alessandra Arnone, a principal mudança observada nos últimos anos está relacionada à qualidade dos ambientes e ao equilíbrio entre trabalho individual e colaboração.
“Durante muito tempo, os escritórios eram desenhados com foco predominante no trabalho individual, numa proporção de 70% de estações individuais e 30% dedicados ao trabalho em grupo. Hoje, vemos o movimento inverso, em que os espaços colaborativos ganham protagonismo para fortalecer cultura, engajamento e interação entre as equipes”, explicou.
Assim, os projetos apresentam layouts menos rígidos, mobiliário diversificado e ambientes que oferecem diferentes possibilidades de uso ao longo do dia. Sofás, pufes, mesas compartilhadas, áreas informais e espaços para reuniões rápidas convivem com estações de trabalho tradicionais.
O conceito conhecido como feels like home, que busca incorporar elementos de conforto típicos dos ambientes residenciais, também ganhou relevância. Luz natural, conforto térmico, acústica adequada, plantas e materiais mais acolhedores passaram a ser componentes importantes na experiência dos colaboradores.
“Não se trata apenas de colocar móveis diferentes. A experiência está relacionada ao conforto, à iluminação, ao controle de ruído, à qualidade dos materiais e até mesmo à oferta de serviços que tornam a rotina mais agradável”, destacou Arnone.
Localização continua importante, mas não é mais suficiente
A localização sempre foi um dos principais critérios para a escolha de um escritório, mas hoje divide espaço com outros fatores igualmente relevantes. Para Alessandra Osiro, o deslocamento continua sendo um dos maiores desafios da ocupação presencial. Em grandes centros urbanos, o tempo gasto nos trajetos influencia diretamente a percepção dos colaboradores sobre a experiência de trabalho.
“O acesso ao transporte público é um dos primeiros requisitos observados pelas empresas. Além disso, a infraestrutura disponível dentro e ao redor do empreendimento tem um peso cada vez maior na decisão”, afirmou.
Rejman observa que a própria dinâmica de escolha dos escritórios mudou ao longo do tempo. Se no passado a decisão ficava concentrada na liderança da empresa ou nas áreas financeiras, hoje as equipes de Recursos Humanos exercem papel decisivo nesse processo.
“As empresas querem entender como será a experiência do colaborador: quanto tempo ele leva para chegar, onde pode almoçar, quais espaços existem para treinamentos, convivência e descompressão. Muitas vezes, a análise do entorno é mais detalhada do que a visita ao próprio escritório”, disse.
Nesse contexto, amenidades e serviços ganharam importância semelhante à da localização. Embora não substituam um endereço bem conectado, podem ser determinantes para a atratividade de um empreendimento.
Hospitalidade vira novo padrão
Para os participantes, uma palavra resume a direção que o mercado corporativo vem seguindo: hospitalidade.
“Os edifícios estão se tornando verdadeiros complexos de convivência. O objetivo é criar espaços onde as pessoas se sintam confortáveis e tenham motivos para estar presencialmente”, afirmou Rejman.
Essa tendência se manifesta em soluções que vão desde restaurantes e cafés até bicicletários mais sofisticados, infraestrutura para veículos elétricos, áreas externas e espaços de bem-estar.
“A experiência está no centro de tudo: na forma como consumimos, nos deslocamos e como ocupamos os espaços corporativos”, acrescentou Osiro.
Retrofit ganha força em um mercado com pouca oferta de terrenos
Outro tema abordado no painel foi o avanço dos projetos de retrofit, impulsionados pela escassez de terrenos em regiões consolidadas e pela necessidade de atualizar ativos para atender às novas demandas dos ocupantes.
Segundo Alessandra Osiro, o reposicionamento de edifícios existentes tem se mostrado uma alternativa importante para ampliar a oferta de espaços corporativos em áreas já estabelecidas. “O retrofit é uma solução em regiões onde não há disponibilidade para novos desenvolvimentos. Em paralelo, também vemos movimentos de conversão de edifícios de escritórios para outros usos, especialmente residencial”, explicou.
Para Alessandra Arnone, além dos benefícios relacionados à sustentabilidade, o retrofit permite preservar características arquitetônicas relevantes dos edifícios. “É possível manter estruturas existentes, preservar elementos históricos e dar uma nova função aos empreendimentos. Existem desafios técnicos, como o pé-direito mais baixo, mas os projetos têm evoluído significativamente”, afirmou.
Do ponto de vista dos investidores e desenvolvedores, o retrofit também oferece ganhos em velocidade de entrega. “Desenvolver um novo edifício pode levar cinco ou seis anos entre aquisição do terreno, aprovações, construção e comercialização. O retrofit permite colocar no mercado um ativo em um prazo muito menor”, destacou Rejman, da BGRE.
Escritório como ferramenta de atração e retenção
Ao olhar para os próximos anos, os especialistas concordam que os escritórios continuarão evoluindo para atender às expectativas de uma força de trabalho cada vez mais diversa. Amenidades, espaços flexíveis, infraestrutura voltada à mobilidade e experiências mais qualificadas devem se tornar elementos obrigatórios dos empreendimentos corporativos.
“Os escritórios seguirão sendo uma ferramenta importante para atrair e reter talentos. Em muitos casos, a experiência oferecida pelo ambiente de trabalho se torna um diferencial competitivo para as empresas”, concluiu Rejman.
Mais do que um local para trabalhar, o escritório do futuro tende a se consolidar como um espaço de convivência, colaboração e fortalecimento da cultura organizacional, pensado para gerar valor tanto para as empresas quanto para as pessoas que o ocupam.