Investidores veem impacto de mudanças climáticas e aceleram descarbonização
A percepção de que mudanças climáticas representam um risco material aos negócios vem redefinindo decisões de investimento no setor imobiliário. Mais do que uma agenda ambiental, a descarbonização do ambiente construído tornou-se uma estratégia financeira para proteger o valor dos ativos, garantir resiliência operacional e atender às expectativas de investidores, ocupantes, colaboradores e clientes das empresas. Dados da JLL indicam que 81% dos proprietários de ativos imobiliários já enxergam as mudanças climáticas como um risco direto às suas operações.
“O mercado amadureceu. Hoje, risco climático é entendido como risco financeiro, e isso muda completamente a forma como investidores e empresas planejam seus portfólios”, afirma Luciana Arouca, Head de Serviços de Sustentabilidade da JLL.
A urgência da agenda ESG é reforçada pelos números. O ambiente construído responde por cerca de 40% das emissões globais de carbono, percentual que chega a 70% nos grandes centros urbanos, segundo a JLL. Em regiões do Norte global, onde se concentra o maior e mais antigo estoque imobiliário do mundo, a taxa anual de retrofit precisaria saltar de 1% para 3% para que as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas, exigindo investimentos estimados em US$ 3 trilhões.
“A transição para o carbono zero no mercado imobiliário não é opcional; é necessária para manter a relevância, a liquidez e a valorização dos ativos no longo prazo”, destaca Luciana.
Fatores que impulsionam a transformação
A descarbonização do setor é impulsionada por três grandes transformações estruturais: energia, edifícios e transporte. No campo energético, avançam as fontes renováveis, soluções de armazenamento e eficiência. Nos edifícios, o foco está na modernização de sistemas como ar-condicionado, iluminação, automação e motores, além do engajamento das pessoas que ocupam esses espaços, com impacto direto na produtividade. Já no transporte, a eletrificação de frotas e a otimização logística ganham protagonismo.
A pressão por estratégias de descarbonização vem de diferentes frentes. Levantamentos da JLL mostram que quatro em cada 10 investidores e proprietários já adotaram projetos de retrofit para reduzir emissões, enquanto 40% dos ocupantes possuem metas de carbono zero e outros 40% planejam adotá-las. Além disso, sete em cada 10 ocupantes estão dispostos a pagar mais por edifícios com certificações verdes, e um em cada dois já realizou reformas com foco em descarbonização.
O pilar social do ESG também pesa nas decisões. Sete em cada 10 colaboradores consideram a sustentabilidade uma obrigação das empresas e a utilizam como critério na escolha do empregador. “Edifícios mais eficientes e saudáveis favorecem o bem-estar e a produtividade das pessoas, fortalecendo a capacidade das empresas de atrair e reter talentos”, afirma a especialista da JLL.
Da meta à execução: o desafio do mercado
Apesar do avanço no discurso sustentável, a execução ainda é um desafio. Embora 80% das empresas já tenham metas climáticas, apenas 20% contam com planos de ação estruturados. “Sustentabilidade é sobre dados, medição e acompanhamento. Sem isso, existe o risco de as metas não saírem do papel, o que gera desconfiança no mercado”, alerta a executiva.
O avanço regulatório no Brasil e no mundo tem acelerado essa mudança. A implementação da taxonomia verde, que cria um sistema comum de classificação de atividades econômicas sustentáveis, oferece mais transparência e comparabilidade para investidores. Outro exemplo é a adoção de padrões globais de reporte ESG pelo mercado de capitais brasileiro.
Questões financeiras também têm peso nas decisões, segundo Luciana. “Acesso a linhas de crédito com taxas preferenciais para ativos sustentáveis, mudanças nas condições de seguros e no planejamento de capital tornam a descarbonização um caminho de oportunidade para quem se antecipa ou de risco para quem ignora”, indica.
A executiva da JLL explica que a jornada da sustentabilidade nos negócios começa pela definição de uma linha de base das emissões de carbono, em um mapeamento que deve incluir áreas internas, levantamento de custos e priorizações. Em seguida, implementam-se ações de eficiência energética, otimização de portfólio, retrofits, modernização de sistemas, gestão de resíduos e análise do carbono incorporado ao longo da cadeia. A eletrificação de frotas, o uso de fontes renováveis com lastro e a geração de energia no próprio local também precisam ser considerados. Créditos de carbono devem ser utilizados apenas de forma residual, com critérios rigorosos de qualidade.
Valor no curto, médio e longo prazos
Em alguns mercados, edifícios certificados já registram prêmios de até 6% nos valores de aluguel. Para ocupantes, os ganhos incluem redução de custos operacionais, avanço nas metas climáticas, fortalecimento de marca e maior atração de talentos. Para investidores e proprietários, a estratégia sustentável ajuda a preservar valor, reduzir a obsolescência e aumentar a resiliência dos ativos.
“Empresas e portfólios imobiliários sustentáveis são mais preparados para enfrentar incertezas e prosperar no longo prazo. Quem entende hoje que risco climático é risco financeiro está construindo vantagem competitiva para o futuro”, conclui Luciana Arouca.