Quase seis anos após o impacto da pandemia, o mercado de escritórios corporativos da América Latina entrou definitivamente em uma nova fase de recuperação. Dados de um recente relatório da JLL mostram um cenário mais equilibrado entre oferta e demanda, com forte retomada da absorção, redução gradual da vacância e maior seletividade por ativos de alta qualidade.
Entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025, a região registrou um crescimento de 43% na absorção líquida, sinalizando um movimento consistente de retorno às decisões imobiliárias por parte das empresas. Ao mesmo tempo, o estoque total cresceu 3,7%, ritmo que já indica desaceleração na entrada de novos projetos, o que poderá gerar pressão adicional sobre ativos mais competitivos nos próximos anos.
Nesse contexto, o Brasil se destaca como o principal motor do mercado regional. São Paulo concentrou 31% de toda a área absorvida na América Latina nos últimos quatro trimestres, com mais de 364 mil m² negociados, volume equivalente ao somatório da absorção de oito dos menores mercados analisados no período: Medellín, San Juan, Guadalajara, Santiago, Buenos Aires, Monterrey e Rio de Janeiro.
“O desempenho de São Paulo evidencia não apenas a força da demanda, mas também a profundidade e a diversidade do mercado corporativo brasileiro”, afirma David Aguiar, analista de Pesquisa e Estratégia da JLL. “Estamos observando um retorno consistente das grandes ocupações, especialmente em edifícios mais novos, bem localizados e alinhados às exigências de eficiência, sustentabilidade e experiência do usuário.”
A taxa de vacância na capital paulista segue em trajetória de queda e já se aproxima dos níveis observados no período pré-pandemia. Esse movimento tem sido acompanhado por uma valorização dos aluguéis, com aumento tanto trimestral quanto interanual, impulsionado principalmente pelos submercados de Centro, Berrini, Chucri Zaidan e regiões emergentes como Pinheiros e Vila Madalena.
Flight to quality em alta: ativos modernos se destacam
O relatório também aponta uma tendência clara de flight to quality em toda a América Latina. Empresas têm priorizado edifícios premium, com infraestrutura moderna, certificações ambientais e oferta de serviços e amenities. Por outro lado, ativos mais antigos enfrentam maior risco de obsolescência e vacância.
Para Aguiar, esse movimento redefine o papel do escritório no modelo híbrido. “A discussão deixou de ser sobre voltar ou não ao escritório. Hoje, o foco está em como tornar esses espaços mais atrativos, funcionais e conectados à cultura das organizações, de forma a estimular a presença e o engajamento das equipes”, diz.
Apesar do cenário positivo, o relatório da JLL alerta para a desaceleração na entrega de novos empreendimentos na região. Caso a demanda siga em recuperação no ritmo atual, a limitação de oferta pode intensificar a disputa por ativos de maior qualidade, pressionando preços e acelerando processos de reposicionamento e retrofit em mercados maduros como São Paulo e Rio de Janeiro.
No panorama regional, a leitura é clara: o mercado de escritórios na América Latina deixou a pandemia no passado e entrou em um novo ciclo, no qual qualidade, localização e experiência se consolidam como fatores centrais de decisão, com o Brasil ocupando papel de destaque nessa transformação.