Data centers avançam com IA e energia no centro das decisões
O mercado de data centers vive uma expansão inédita. Impulsionado pela inteligência artificial (IA), pela crescente digitalização e por um novo cenário energético, o setor caminha para praticamente dobrar de tamanho até 2030, o que marca um dos maiores ciclos de investimento em infraestrutura digital da história recente. De acordo com o Global Data Center Outlook 2026, da JLL, a capacidade global deve alcançar 200 GW até 2030, com a adição de cerca de 100 GW em novos projetos e investimentos totais que podem chegar a US$ 3 trilhões.
Apesar do alto volume de capital e da concentração em grandes empresas de tecnologia, o estudo aponta que o crescimento do setor não apresenta sinais de bolha.
“Existe uma percepção de concentração, mas a infraestrutura construída pelas grandes empresas atende a uma base extremamente pulverizada de usuários e setores. A demanda por dados e processamento está se espalhando por toda a economia”, analisa Bruno Porto, gerente de Negócios Imobiliários Logísticos, Industriais e de Data Centers da JLL.
EUA lideram, mas novos polos surgem com oferta energética
O continente americano segue como a principal região global, com cerca de 50% da capacidade instalada e o maior crescimento projetado até 2030. Embora essa liderança ainda seja fortemente concentrada nos Estados Unidos, que detêm 90% do mercado na região, há oportunidades para novos polos se desenvolverem, especialmente na América Latina.
“A América Latina já cresce em um ritmo comparável, ou até superior, ao de mercados mais maduros. Como a base é menor, há espaço para uma expansão mais acelerada nos próximos anos”, afirma Porto.
O Brasil ainda enfrenta desafios regulatórios e de atração de investimentos, mas apresenta uma vantagem competitiva relevante no cenário global: o acesso à energia. Em um momento em que a energia se torna o principal fator de decisão para novos data centers, o país aparece em melhor posição do que mercados tradicionais.
“Quando olhamos para os principais hubs globais, os prazos para conexão à rede chegam a ultrapassar seis anos. No Brasil, estamos falando de algo entre um ano e meio e dois anos, o que é bastante competitivo no contexto atual. Além disso, há regiões onde a capacidade energética já está esgotada ou com restrições severas. Isso acaba direcionando novos investimentos para mercados que ainda têm disponibilidade e capacidade de expansão”, diz o especialista da JLL.
IA muda a lógica de localização e consolida data centers híbridos
Mais do que crescimento, o momento atual marca uma transformação estrutural do setor. A inteligência artificial é o principal vetor de crescimento e um fator que pode redistribuir investimentos globalmente. Uma das mudanças mais relevantes é a transição do treinamento de modelos para o uso em escala (inferência), que exige infraestrutura mais distribuída e próxima dos usuários.
“O valor econômico da IA está na sua aplicação, não no desenvolvimento. Para viabilizar o uso em escala, é necessário distribuir a infraestrutura, e isso abre espaço para países com disponibilidade de energia e capacidade de expansão”, explica Porto.
Outra tendência estrutural destacada pelo estudo é o crescimento dos data centers híbridos, que combinam cloud, colocation e aplicações de IA. Esse modelo deve se tornar dominante, impulsionado pela necessidade de integração entre dados e processamento para reduzir a latência, melhorar o desempenho e facilitar a operação de aplicações mais intensivas, como a IA.
Setor é atrativo, mas energia e regulação ainda são desafios
O aumento de custos e os atrasos em projetos são desafios globais, de acordo com o estudo. Mesmo assim, o setor segue atrativo, com forte demanda, alta ocupação e boas perspectivas de retorno.
Apesar das oportunidades, o Brasil ainda enfrenta desafios importantes para capturar uma fatia maior do crescimento do setor de data centers, como o ambiente regulatório e a previsibilidade para investimentos.
“O investidor precisa de clareza sobre regras, incentivos e custos. Sem previsibilidade, o capital tende a buscar mercados mais consolidados. Além disso, a própria infraestrutura energética nacional exige atenção. O Brasil tem vantagens, especialmente em energias renováveis, mas ainda há desafios de distribuição e necessidade de investimentos em algumas regiões para viabilizar novos projetos”, pontua Porto.
Diante dos gargalos de conexão à rede e da crescente demanda por capacidade energética, a geração própria de energia surge como uma tendência global, reduzindo custos e riscos.
“A geração própria passa a ser uma alternativa importante para mitigar riscos de escassez e reduzir a dependência do grid. No Brasil, temos o Porto do Açu, por exemplo, que combina localização estratégica e geração local de energia, trazendo mais segurança para operações intensivas de data centers. Projetos que já nascem com essa possibilidade tendem a ter uma vantagem competitiva relevante”, indica o executivo da JLL.