T0, para que te quero?
O Mercado imobiliário evolui quando apreende e responde às transformações sociais. Foi sempre assim. Em Portugal e na Europa, assistimos a uma profunda alteração nas estruturas familiares e demográficas, que exige uma resposta urgente: a reserva habitacional precisa de adaptar-se à nova realidade social. As tipologias mais pequenas, como OS T0 e T1, ganham crescente relevância num contexto em que as famílias são menores e as formas de habitar estão a mudar.
A evolução das sociedades conduz a agregados familiares mais pequenos re-flexo da emancipação, da independência intergeracional, da maior longevidade e das baixas taxas de natalidade. Na Europa, países como a Alemanha, Suíça ou Suécia apresentam agregados médios de cerca de duas pessoas, uma tendência que continua a reduzir.
Em Portugal, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram o mesmo padrão. Entre 1970 e 2021, O número de agregados familiares aumentou 70%, enquanto a população cresceu apenas 19%. No mesmo período, a dimensão média dos agregados passou de 3,6 nos anos 70 para 2,5 pessoas em 2021. Em 2023, mais de um quarto das famílias eram compostas por apenas uma pessoa: a segunda tipologia mais comum. Estes números revelam uma transformação estrutural nas necessidades de habitação.
A máxima “quem casa quer casa” deixou de fazer sentido. O casamento já não define a procura de habitação. Há mais famílias monoparentais, mais divórcios e mais pessoas a viver sozinhas. Vivemos também mais conectados digitalmente, o que muda a forma como nos relacionamos e como habitamos o espaço.
As novas gerações valorizam a mobilidade e a experiência sobre a posse. Procuram flexibilidade e localização, mais do que dimensão. Um T0 ou T1 bem situado, funcional e eficiente, responde melhor às suas necessidades do que um imóvel maior e mais caro.
Modelos como o “flex living” – edifícios com pequenos apartamentos privados e espaços comuns partilhados – exemplificam esta mudança. Estes projetos conciliam autonomia com sentido de comunidade e têm vindo a ganhar tração nas principais cidades europeias e também em Portugal, como mostram os estudos de viabilidade e as transações que passam pela JLL.
Num país com muitas casas grandes e agregados cada vez mais pequenos, é essencial adaptar o par-que habitacional. Devemos promover a reabilitação e a construção de tipologias pequenas, inteligentes e sustentáveis, que respondam às novas realidades sociais e económicas.
Esta aposta representa uma solução estratégica para a crise habitacional, permitindo criar habitação mais acessível e eficiente, ajustada aos estilos de vida contemporâneos.
Portugal mudou. A forma como vivemos mudou. O património habitacional tem de acompanhar.
*Agregado Familiar sumariamente, é um grupo de pessoas que vivem na mesma habitação e partilham despesas e recursos, independentemente de terem laços de parentesco. Pode ser composto por uma só pessoa.
Artigo publicado pela Construir.
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